Brasília, 27 de março de 2026.
A consciência ambiental do país pode ter sido ampliada, nos últimos anos. E da mobilização social que a acompanha depende a Amazônia, ainda considerada a maior reserva de biodiversidade do planeta. Ao mesmo tempo, é preciso (e possível) cuidar da sobrevivência de seus 29 milhões de habitantes. O que deveria ser feito de forma oposta ao modelo adotado em anos recentes, quando a instabilidade administrativa decorrente de uma visão de mundo parasitária (ou produtivista-consumista, como prefere o autor) se refletiu na ocupação desenfreada (atualmente responsável pelo desmatamento de 20% do território amazônico brasileiro) por meio de processos de intervenção já igualmente experimentados nas décadas de 1960 e 1970.
O ofuscamento da luz solar em agosto de 2019 por meio de nuvens de fumaças das queimadas amazônicas, sobretudo, se deu no momento em que o professor Ricardo Abramovay sedimentava sua oposição ao desmatamento mais embrutecedor na obra “Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza” (Elefante). Filósofo identificado também com a importância da releitura da relação da sociedade brasileira com os seus processos de segurança alimentar – desde “O que é Fome?” (Brasiliense, 1983) –, Abramovay defende a convivência estratégica entre os atores envolvidos, desafiando a tendência a uma desertificação (“savanização”) trágica e sob o olhar de uma “economia do conhecimento da natureza”.
Nesse caminho, desembaraçando o peso ecológico da sua centena de folhas, o pesquisador aponta, em seus cinco capítulos: “O desmatamento não é premissa para o crescimento da Amazônia”; “São baixos os custos do desmatamento zero”; “As áreas protegidas são um trunfo para o Brasil”; “As áreas protegidas estão sob ataque” e “Proteção às florestas não é idiossincrasia brasileira”.
Articulista do site “Jornal da USP”, à qual é ligado por meio do Instituto de Estudos Avançados (IEA), do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e da cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública, o professor é ainda autor e organizador de obras como “O Futuro das Regiões Rurais” (UFRGS, 2003); “Biocombustíveis: a energia da controvérsia” (Senac, 2009); “Muito além da Economia Verde” (Planeta Sustentável, 2012), “Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza” (2020); “Infraestrutura para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia “ (Elefante, 2022) “Caminhos para a Transição do Sistema Agroalimentar: desafios para o Brasil” (Senac, 2025,com Arilson Favereto). A seguir, vamos conhecer um pouco melhor algumas das ideias desse requisitado mestre da Economia para o século XXI.
Confea – Seus recentes artigos “A economia do excesso”, com Patrícia Jaime, e “’Guia Alimentar’ dos Estados Unidos vai contra todas as evidências científicas” reiteram a relação entre os hábitos alimentares, a saúde pública e o sistema climático, ao analisar o Guia Alimentar dos Estados Unidos, pautado em uma dieta proteica e sem evidências de benefícios, em contraposição à brasileira, mais diversificada e cientificamente recomendada. Paradoxalmente, acabamos de retomar a nossa condição de país livre da fome. De um lado, temos o desconhecimento sobre Josué de Castro e Milton Santos. De outro, a Cátedra Josué de Castro e outros centros de pesquisa sobre esse tema tão caro à nossa história. Essas aparentes contradições estimulam ainda mais seu estudo sobre a insegurança alimentar e o meio ambiente?

Professor Ricardo Abramovay – O sistema agroalimentar global, quando a gente usa essa expressão no singular, ele foi moldado a partir dos anos 1960 com a Revolução Verde que implantou inovações tecnológicas que permitiram aumentar a produção e contribuíram para combater a fome no mundo. Na época, ela atingia um a cada três habitantes no mundo. Hoje é um escândalo ter 800 milhões de pessoas com fome, mas é uma a cada 10. Essas tecnologias trouxeram problemas para saúde humana, para o bem-estar animal. Até o final do século XX, esses problemas não haviam sido amadurecidos, não eram tão grandes, o mundo vivia sob o trauma de uma sociedade em que um terço da sociedade já apresentava essas características. Mas as tecnologias que envolveram a segurança alimentar mostraram-se esgotadas, pelo uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos por unidade de produto, não aumentando a produção, quando os fatores naturais de resistência aos agrotóxicos vão se manifestando. Vai fazendo inovações nas sementes e tudo isso com o uso cada vez maior de fertilizantes. Nesse momento, sob um risco gigantesco porque esse modelo se apoia... – embora a agricultura brasileira seja de uma força impressionante, éramos importadores de alimentos até os anos 1970 e hoje estamos entre os três exportadores mundiais – mas a estrutura é problemática porque ela é altamente dependente de insumos, os quais a situação geopolítica atual não garante obtê-los. As bases tecnológicas desse modelo estão sob ameaça, exigindo repensar a noção de insegurança alimentar por conta de os insumos serem interrompidos. Já aconteceu na Ucrânia e agora ainda mais com guerra do Irã. Um segundo fator importante é na produção animal. O Brasil está em alguns momentos entre os maiores exportadores de aves e suínos, mas o sistema agroalimentar global é voltado para a oferta de produtos animais. Quarenta por cento dos grãos destinam-se a animais e a maior parte da superfície terrestre é voltada para animais, por pastagens ou grãos que vão alimentar aves e suínos. Além de serem extremamente prejudiciais aos animais, uma tortura, uma matriz suína, por exemplo, é colocada na sua gestação em um local em que ela não consegue dar volta no próprio corpo. E altamente dependente de antibióticos. O Brasil é o segundo consumidor mundial de proteína animal. O terceiro problema muito sério a partir dos anos 1970 e evidente também é a “monotonia alimentar”, com os aumentos de super processados, como alertou o professor (e médico epidemiologista) Carlos Monteiro, da Faculdade Saúde Pública da USP. Esse alimento é voltado para o tipo de alimentação que mais mata, ligado à epidemia da obesidade.
Confea – Como o senhor percebe o papel estratégico do agronegócio para a nossa economia, em um cenário de globalização e também de discussão mais aberta sobre o que o senhor chamou de Paradoxo da Abundância? Não apenas o agronegócio focado na produção de commodities, mas também sua pesquisa e desenvolvimento, logística e produção de valor agregado...
Professor Ricardo Abramovay – A expressão esconde uma contradição importante, de um lado tem um conjunto de indústrias e de dispositivos e corporações de comercialização de caráter quase monopolista. Quarenta e dois por cento do mercado de sementes são controlados globalmente por duas firmas: Bayer, 23% só ela, e Corteva Agriscience, com o restante. São duas companhias que controlam a genética de aves do mundo; 10 companhias controlam 68% dos farmacêuticos para animais; cinco companhias têm 43% do controle de máquinas agrícolas; seis companhias têm o controle de fertilizantes. Mas o que está acontecendo hoje é que estas companhias determinam os padrões tecnológicos do sistema agroalimentar. O fazendeiro não faz o que ele quer, mesmo o grande fazendeiro. Faz aquilo que está disponível pelas corporações que dominam o setor a montante e à jusante. E esse domínio das corporações é determinante dos métodos produtivos. O jeito de produzir não é determinado pelos fazendeiros. Os custos destas tecnologias hoje estão na origem do aumento de custo da agricultura, que por sua vez está na origem do imenso endividamento do setor agrícola. As grandes corporações determinam os padrões alimentares. O Brasil era um país competitivo nos anos 1980 na oferta industrial interna e nas exportações era superior à Coreia do Sul e à China, e hoje está muito atrás da Índia até. A reprimarização (desindustrialização ou exportação concentrada em produtos primários, em detrimento a produtos industrializados) da vida econômica é que permanece. Somos uma potência agrícola especializada na venda de produtos que por mais que suponham tecnologias são de baixo valor agregado. Temos recursos naturais preciosos exportados de forma pouco valorizada pela “intelligentsia”. Nossa economia ainda é totalmente de commodities. A Índia deu um salto industrial espetacular, apesar de ser uma ditadura, com empresas globais.
Confea – Em outro artigo publicado após a COP 16 da Biodiversidade, em Cali (Colômbia), em 2024, o senhor sustentou a importância da regeneração da biodiversidade no próprio campo, como forma de interromper a destruição dos diferentes biomas latino-americanos. Após a COP 30, da Mudança Climática, ano passado, em Belém, houve avanços nessa perspectiva?
Professor Ricardo Abramovay – Não. Não houve avanços do ponto de vista das políticas públicas. Nem no Brasil, nem em outros países. Houve avanços de alguns segmentos empresarias que não estão aguentando o fogo sobre suas rendas e sobre os recursos ecossistêmicos que eles gerem. A soja está se estreitando. O que pagam pelos agrotóxicos está ficando cada vez mais caro. E o Brasil tem tecnologias que poderiam permitir avanços desses modelos produtivos, mas, justamente pelo poder das corporações agroquímicas, esse avanço é muito menor. Temos financiamentos para a agricultura maiores que o Plano Safra. Há mais extensionistas para insumos do que extensionistas tentando orientar esses públicos. Nesse sentido, temos um grande potencial da agropecuária regenerativa, mas os avanços são muito lentos.
Confea – A agricultura regenerativa, a agricultura familiar e outras linhas de atuação vêm sendo muito difundidas nas últimas décadas como formas de modificar a sustentabilidade e a realidade socioeconômica do campo. O senhor defende essa ruptura de paradigmas globais desde seu primeiro livro pela coleção Primeiros Passos sobre a fome. Quais foram as suas principais referências para dedicar-se a essa temática da segurança alimentar, ao longo de quatro décadas?
Professor Ricardo Abramovay – A primeira foi Josué de Castro. É óbvio que não dá para se apoiar sempre na Geopolítica ou na Geografia da Fome. Os conceitos foram se transformando, hoje temos autores que desenvolveram as diferentes áreas do desenvolvimento sustentável: Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, com um trabalho de grande influência sobre o Índice de Desenvolvimento Humano, utilizado pela ONU. Tem ainda Ignacy Sachs, de quem fui amigo, e outras referências. A Agronomia está passando por uma transformação importante. A Revolução Verde tratava o crescimento das plantas como um engenheiro trata um prédio. Esse paradigma é contestado, hoje se está interessado na interação entre os micro-organismos, usar as interações que compõem a vida, e não a destruição da vida que caracterizou a Revolução Verde. Está em todo o mundo, mas, infelizmente, bem menos do que deveria estar. Elas estão comprando insumos de bioinsumos e, em vez de promover a transição para as tecnologias de fato regenerativas, continuam fazendo melhoramentos nas tecnologias convencionais como se isso fosse fazer um problema. Não precisa aumentar a produção, não precisa destruir...
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
Com a colaboração da assessoria de comunicação da Universidade de São Paulo e de Murilo Bomfim.
